Poesia & Cidadania
vargas wallenstein
A democracia é um sistema em que umas pessoas representam outras. Não há democracia se as pessoas não souberem expor as suas ideias, para que outras se possam nelas rever. Precisamos treinar-nos a falar em público, com sensibilidade e clareza, sem ficar acanhados nem tentar abocanhar ninguém. A poesia pode ajudar?

Nas escolas norte-americanas há uma actividade chamada “show and tell”. Os miúdos têm que se pôr à frente da turma e falar de um assunto por eles escolhido. Torna-se uma coisa normal, falar em público, sobretudo quando passa da escala da turma para a escala da escola.

Nas nossas escolas muitas crianças podem chegar a cidadãos de pleno direito sem nunca ter exposto as suas ideias a um público maior do que o seu agregado familiar. Pode uma democracia singrar sem cidadãos experientes a falar, e a ouvir, o que uns e outros pensam? Sem uma sensibilidade treinada, e sem desenvolver o gosto por isso, os povos naturalmente abdicam do seu sentido crítico e fazem-se representar por pessoas eleitas como se de um campeonato de futebol se tratasse.

Na assembleia, os políticos falam pouco da substância dos programas e do impacto previsto no nosso modo de vida. Gastam a maior parte do tempo a atacar os seus adversários. É um comportamento absurdo, considerado normal, que revela a nossa imaturidade cívica. Os media também não escrutinam a substância, preferem falar das estratégias adoptadas, de vencedores e vencidos, como se isso fosse relevante para as nossas vidas. Infelizmente, nos cafés, as pessoas seguem esse campeonato e engordam as audiências.  

Lembro-me de ficar chocado perante um estudo que revelava que o medo de falar em público era percentualmente maior do que o medo da morte. O clima de ataque e defesa conotado com a exposição pública, agravado pela iliteracia emocional, tornam este flagelo omnipresente. Mas, e se desde cedo fossemos treinados na prática saudável, e emocionalmente segura, da exposição das nossas ideias aos outros?

Para viver em democracia precisamos de pessoas treinadas a reconhecer a substância, a valorizá-la. Sem medo de dizer “o rei vai nu” de cada vez que a superficialidade e a demagogia nos afastam de uma sociedade mais madura e menos paradoxal.

E a poesia? A língua materna é o nosso grande instrumento de entendimento e o domínio das suas nuances e possibilidades aumenta em muito a qualidade da nossa relação com os outros e com o mundo. O confronto com a não-literalidade da liberdade poética aumenta em muito a consistência da literacia. Fortalece as ligações entre as várias dimensões do entendimento, incluindo as mais subtis, e estimula o contacto bilateral entre os hemisférios cerebrais.     

A poesia lida em voz alta, em liberdade de forma e ritmo (com regras de partilha e sem ser para avaliação), é um instrumento de naturalização e aperfeiçoamento da expressão oral. É um “jogo” de beleza e sensibilidade que desenvolve a inteligência emocional e outras competências que muita falta fazem para melhor nos entendermos uns aos outros. Até por fim interiorizarmos que o destino de um está incluído no destino de todos.  

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